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Estudantes · 06 de 11

Dislexia, discalculia e TDAH

Você conhece este estudante. Ele entende a explicação, participa da discussão e, na hora de ler o enunciado, de fazer a conta ou de manter o foco até o fim da folha, trava. Dislexia, discalculia e TDAH não são falta de esforço nem de inteligência. São formas diferentes de processar leitura, números e atenção. Este capítulo explica o que a lei pede da escola e o que funciona na prática.

11 min de leituraPara: Professor(a) regente · Professor(a) do AEE · Coordenação e gestãoAtualizado em outubro de 2026
Ao final deste tema, você vai saber
  • o que a Lei 14.254/2021 pede da escola, e o que não pede
  • estratégias para leitura, escrita, Matemática e atenção
  • separar o que você quer avaliar do formato da prova
Em 30 segundos
  1. Dislexia afeta a leitura e a escrita (decodificação, fluência, ortografia). Discalculia afeta o senso numérico e o cálculo. O TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) afeta a atenção, o controle de impulsos e a organização.
  2. Esses estudantes não estão, apenas por essas condições, no público da educação especial. Mas a Lei 14.254/2021 obriga as escolas públicas e privadas a garantir acompanhamento específico, o mais cedo possível.
  3. A regra de ouro é separar a habilidade-alvo (o que você quer ensinar ou avaliar) da habilidade-instrumento (ler, escrever, calcular, ficar parado). Se o alvo é Ciências, a leitura não pode ser a barreira.
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Ideia centralSe a habilidade avaliada é Matemática, a leitura não pode ser a barreira. Se é interpretação, a ortografia não pode ser a nota.

Quem são esses estudantes

Dislexia. É uma dificuldade específica e persistente para decodificar palavras, ou seja, transformar letras em sons com rapidez e precisão. A leitura fica lenta, silabada e cansativa, e a escrita tem muitas trocas. A compreensão oral costuma ser boa: quando alguém lê para o estudante, ele entende.

Discalculia. É uma dificuldade específica com o senso numérico: perceber quantidades, comparar, entender a sequência e o valor posicional, memorizar fatos básicos. O estudante pode entender bem a lógica de um problema e se perder na conta.

TDAH. É uma condição do neurodesenvolvimento ligada à atenção, à hiperatividade e à impulsividade. Afeta as funções executivas: iniciar, planejar, manter o foco, lembrar instruções, controlar a impulsividade. Não é, a rigor, um transtorno de aprendizagem, mas a Lei 14.254/2021 trata os três em conjunto. É comum que apareçam juntos no mesmo estudante.

O professor observa, não diagnostica

Muitas crianças em alfabetização trocam letras, e muitas crianças pequenas são agitadas. O diagnóstico é feito por profissionais de saúde, a partir de avaliação própria. O seu papel é notar sinais persistentes, registrar o que observa e conversar com a coordenação e a família, que podem buscar avaliação. Nunca diga a uma família "seu filho tem dislexia" ou "isso é TDAH".

O que a lei exige (e o que não exige)

A Lei 14.254/2021 trata do acompanhamento integral de estudantes com dislexia, TDAH ou outro transtorno de aprendizagem. Em resumo:

  • O poder público deve manter um programa de acompanhamento integral que inclui identificação precoce, encaminhamento para diagnóstico, apoio educacional na rede de ensino e apoio terapêutico na rede de saúde (art. 1º).
  • As escolas da educação básica, públicas e privadas, com o apoio da família e dos serviços de saúde, devem garantir o cuidado e a proteção a esses estudantes (art. 2º).
  • Quando a dificuldade na leitura e na escrita, ou a instabilidade na atenção, repercute na aprendizagem, o estudante deve ter acompanhamento específico pelos seus educadores, na própria escola, o mais cedo possível (art. 3º).
  • Os sistemas de ensino devem garantir aos professores informação e formação continuada para identificar sinais precocemente e para o atendimento escolar desses estudantes (art. 5º).
Público da educação especial? Não, mas com direito a apoio

A LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação, art. 58) e o Decreto 12.686/2025, que instituiu a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, definem o público da educação especial: estudantes com deficiência, com TEA (Transtorno do Espectro Autista) e com altas habilidades/superdotação. Dislexia, discalculia e TDAH, sozinhos, não estão nessa lista. Por isso, não garantem por si o AEE (Atendimento Educacional Especializado). Mas isso não significa "nenhum apoio": a Lei 14.254/2021 garante o acompanhamento específico na escola. Se o estudante tiver também uma deficiência, TEA ou altas habilidades, ele passa a ser público da educação especial. Consulte ainda as normas do seu sistema de ensino, que podem prever planos de apoio próprios.

O que o professor observa

DimensãoO que você pode observarAção prática
Rota fonológica (leitura)Troca letras de sons parecidos (p/b, t/d, f/v); leitura lenta e silabada; dificuldade com palavras novas.Não avalie a leitura quando o conteúdo-alvo for outro: leia o enunciado em voz alta ou ofereça áudio.
Senso numéricoNão compara quantidades sem material; inverte números (21/12); não liga o numeral à quantidade.Use a linha numérica concreta e material manipulável antes dos numerais abstratos.
Atenção sustentadaDesengaja depois de poucos minutos; distrai-se com qualquer estímulo; levanta-se com frequência.Blocos curtos de atividade com pausas ativas planejadas.
Memória de trabalho verbalEsquece o começo da instrução antes de você terminar de falar; perde o fio de explicações longas.Sempre apoio visual junto com a fala: instrução escrita, esquema, exemplo pronto.

Estratégias para leitura e escrita

  • Acesso ao texto: leia os enunciados em voz alta, ofereça versões em áudio ou leitores de texto e segmente textos longos em blocos com subtítulos.
  • Formato: fonte sem serifa, tamanho 12 ou maior, entrelinhas amplas, pouco texto por página e destaque nas palavras-chave.
  • Não exponha: só peça leitura em voz alta para a turma se o estudante quiser e tiver tido tempo de preparar.
  • Escrita: aceite resposta oral, escriba (alguém escreve o que o estudante dita), corretor ortográfico ou software de predição de texto quando o alvo não for a ortografia. Reduza a cópia do quadro: entregue o texto impresso.
  • Ensino explícito: na alfabetização e nas aulas de Língua Portuguesa, trabalhe de forma sistemática a relação entre letras e sons, a consciência fonológica e a fluência, com prática frequente e curta.

Estratégias para Matemática

  • Comece pelo concreto (material dourado, fichas, linha numérica no chão) antes do símbolo.
  • Quando o objetivo for o raciocínio, permita tabela de fatos (tabuada) ou calculadora. Se o objetivo for o cálculo em si, aí sim avalie o cálculo.
  • Use papel quadriculado para alinhar as contas e cores para separar unidades, dezenas e centenas.
  • Em problemas, leia o enunciado com o estudante e peça que ele conte com as próprias palavras o que está acontecendo antes de calcular.

Atenção e funções executivas em sala

  • Lugar estratégico: perto do professor e longe da porta e da janela.
  • Tarefas em blocos: divida a folha em partes ("faça só o quadro 1 e me mostre"), com um checklist de até 3 itens e um cronômetro visível.
  • Movimento planejado: dê funções que permitam levantar (distribuir material, apagar o quadro) e pausas ativas curtas entre os blocos.
  • Sinal combinado: um gesto discreto para "volte para a tarefa" evita chamadas de atenção em público.
  • Retorno rápido e específico: "Você terminou as duas primeiras, ótimo, agora a terceira" funciona melhor do que "presta atenção".
Exemplo em sala

Na prova de Geografia do 8º ano, Rafael, que tem dislexia, tirava notas baixas. O professor Marcos percebeu que ele sabia o conteúdo quando falava sobre ele. Combinou então que os enunciados seriam lidos em voz alta para Rafael, que as questões abertas poderiam ser respondidas oralmente e gravadas, e que a ortografia não seria descontada. A nota passou a medir Geografia. A ortografia continuou sendo trabalhada nas aulas de Língua Portuguesa, com metas próprias.

Avaliação: separe o alvo do instrumento

Se o objetivo é……então o instrumento não pode ser a barreira
Compreender um conceito de Ciências ou HistóriaLeitura do enunciado em voz alta, resposta oral ou esquema, ortografia não descontada.
Resolver um problema matemáticoLeitura apoiada do enunciado; calculadora quando o alvo for a estratégia.
Produzir um texto argumentativoAvalie a argumentação separadamente da ortografia; permita planejamento com esquema.
Qualquer conteúdo (estudante com TDAH)Prova em blocos menores, tempo adicional, ambiente com menos distrações, questões curtas.

O que evitar

  • Rotular: "preguiçoso", "desatento", "se quisesse, fazia".
  • Tirar o recreio ou a educação física como punição por não terminar a tarefa.
  • Cópias longas do quadro como condição para participar.
  • Comparar publicamente o ritmo de leitura ou a letra com os dos colegas.

Mitos × fatos

Mito"Dislexia é ver as letras de trás para frente."
Fato: o núcleo da dislexia está no processamento dos sons da língua e na associação entre letra e som, e não na visão. Inverter letras é comum no começo da alfabetização e, sozinho, não indica dislexia.
Mito"Se consegue ficar horas no videogame, não tem TDAH."
Fato: atividades com estímulo rápido e recompensa imediata prendem a atenção de quase todos. O desafio do TDAH aparece em tarefas longas, repetitivas ou com recompensa distante, como uma lista de exercícios.
Mito"Dar leitura em voz alta ou mais tempo é privilégio."
Fato: esses ajustes não dão vantagem: eles removem um obstáculo que não tem relação com o que está sendo avaliado. É como permitir óculos a quem precisa deles.

A ligação com o planejamento individual

Mesmo quando o estudante não é público do AEE, vale registrar um plano de acompanhamento individual: as barreiras observadas, as estratégias combinadas (de acesso, de ensino e de avaliação), quem faz o quê e quando revisar. Muitas redes usam a estrutura do PEI (Plano Educacional Individualizado) para isso. O importante é que os ajustes sejam os mesmos em todas as disciplinas e que a família saiba o que foi combinado. Esse registro também atende ao que a Lei 14.254/2021 chama de acompanhamento específico pelos educadores.

Para pensar na sua turma

Pegue a sua última avaliação. Em cada questão, pergunte: o que eu queria medir aqui? Ler, escrever, calcular ou ficar 50 minutos sentado faz parte disso? Se não faz, qual ajuste simples tiraria esse obstáculo do caminho, para quem precisa?

Um caso da escola

Prova de História que media leitura

No 7º ano, Laura tira notas baixas nas provas de História. Nas aulas, ela explica com detalhes as causas dos fatos que a turma estuda. Nas provas, deixa as questões abertas em branco e escreve com muitas trocas de letras. A professora Vera desconta a ortografia em todas as respostas.

O que fazer

Vera separa o alvo do instrumento: a prova deve medir História. Ela lê os enunciados em voz alta para Laura, aceita resposta oral gravada ou em esquema e não desconta a ortografia. Entrega o texto impresso, com letra maior e palavras-chave em destaque. Registra o que observou e conversa com a coordenação e a família, sem dar diagnóstico. A ortografia segue com metas próprias em Língua Portuguesa, e os ajustes valem em todas as disciplinas.

Teste seu entendimento

5 perguntas sobre este tema

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Escolha uma resposta. Cada pergunta mostra a explicação logo depois.

Para levar à sala

Nesta semana

  • Pegue sua última avaliação e marque, em cada questão, se ler, escrever ou calcular atrapalhou o que você queria medir.
  • Combine com um estudante que se distrai um sinal discreto para "volte para a tarefa" e divida a próxima atividade em blocos curtos.

Mais ideias nos checklists.

Para a coordenação: roteiro do encontro de formação (50 min)

Antes do encontro: Cada professor lê o tema "Dislexia, discalculia e TDAH" e traz uma avaliação recente da sua turma.

  1. (5 min) Abertura: Na sua última prova, o que você queria medir em cada questão, e o que acabou medindo?
  2. (15 min) Em duplas, revejam as avaliações trazidas e separem, em cada questão, a habilidade-alvo da habilidade-instrumento.
  3. (15 min) Em grupos, escolham um ajuste para leitura, um para Matemática e um para atenção que todos possam aplicar.
  4. (10 min) Na roda, combinem como registrar o acompanhamento individual e como contar à família o que foi combinado.
  5. (5 min) Combinado: Cada professor aplica um dos ajustes combinados em uma tarefa ou avaliação e traz o resultado para o próximo encontro.